Olha só a entrevista com a ultra chic Clô Orozco! Cada vez mais admiro não só a estilista, mas as personalidades existentes nessa mulher contemporânea e de nome forte: Clotilde Maria Orozco de Garcia.
JS: Por que a inspiração em uma peça de Sartre para dar nome a sua marca?
CO: Nos 70, Simone de Bouvoir e Sartre eram nossos ídolos. Acabava de ler a peça de Sartre Huis Clos (que aqui foi traduzida como “Entre 4 paredes”), foi exatamente no momento em que procurava um nome para a marca.
JS: A Maria Garcia foi um desejo ou uma necessidade do mercado?
CO: Primeiro uma necessidade. Mas como nada é por acaso, como dizia um ex-namorado, eu tenho duas personalidades: uma é a Clô Orozco (empresária, estilista, estilosa e conceitualmente minimalista), outra que é a Maria Garcia ( meu nome: Clotilde Maria Orozco de Garcia). Essa última com 17 anos de idade mental, super pop, it girl, com as últimas tendências e ícones da moda completando, sempre um visual moderno e cheio de vida. Tenho hoje uma equipe super afinada que me ajuda a encontrar a cada coleção uma inspiração mais incrível que a última, para formatar essa garota que é tudo isso e ainda tem atitude, é contestadora e inteligente como a filha da Huis Clos. Faço um exercício delicioso ao trabalhar com outro universo, diferente do da Huis Clos que é mais conceitual, trabalha mais com moulage. A Maria Garcia pode e tem humor, brinca com as tendências sem deixá-las caricatas ou sem um pensamento. Por exemplo, não pegamos uma estampa ou uma peça de brechó sem trabalhar a modelagem, o acabamento e ou a forma, e como resultado deixá-la contemporânea.
JS: Como acontece o “intervalo” entre a criação das coleções? Elas se intercalam ou é preciso “dar uma limpada” nas idéias e começar do zero?
CO: É preciso dar uma limpada, mas como se trata de uma marca com um forte DNA, sempre há um fio condutor no inconsciente que faz você perceber que uma tem a ver com a outra. Por exemplo, misturei esta semana com uma saia estampada desta coleção uma regata da coleção “Sara Moon”, de 4 anos atrás, e ficou incrível, as duas peças juntas conversaram de uma forma inusitada, corajosa fazendo um visual, chic, ultra moderno elogiadíssimo no evento. Algumas pessoas lembravam desse desfile, outras, justamente aquelas que teoricamente deveriam lembrar, não.
JS: As inspirações surgem a qualquer hora?
CO: As inspirações surgem das últimas influências, geralmente adquiridas nas nossas viagens de pesquisa que geralmente acontecem em Paris por ocasião da ida ao Premiére Vision (feira de tecidos). Lá vamos à Ópera, a algum concerto, cinema, várias exposições de moda, fotografia, arte em geral, fazemos pesquisa em brechós, etc. Todas essas informações vão montando uma espécie de quadro no qual vamos achando a cartela de cores, volumes e formas que a gente vai desenhando e desejando trabalhá-las.
JS: Por que a Huis Clos só introduziu o salto alto nas passarelas em 2006?
CO: Certamente porque a silhueta da roupa nos remetia a esse desejo.
JS: Você está satisfeita com a exportação? Para qual país mais exporta?
CO: Não. A política cambial somada aos impostos que incorrem sobre a mão-de-obra e a própria falta de incentivo de exportação ao setor, impossibilita essa atividade. Hoje o Brasil é exportador apenas de comodities. A única exportação nossa hoje é para uma loja multimarcas do Kwaitt.
JS: Só quem tem a competência de estar no mercado há muitos anos sabe como é difícil o comércio da moda no Brasil. Como vê a crítica de alguns jornalista que “culpam” os estilista e dizem que a moda brasileira é muito cara?
CO: Fico perplexa e admirada, pois sempre soube que a formação de um jornalista deve ser baseada na veracidade dos fatos e na investigação. Ou seja, para criticar, o jornalista deveria averiguar porque a moda brasileira está cara, não? Será que ele sabe que, como em tudo, se paga muito imposto? Costumo perguntar a quem vem com essa pergunta, é só a moda que está cara? E o seu carro, e o seu condomínio, o aluguel do seu imóvel ou habitacional, alimentação, restaurante… Enfim, o custo Brasil e uma moeda extremamente valorizada (política cambial) propicia algumas dessas coisas terem um preço relativo ao que se ganha? Só as grandes redes populares, devido ao tamanho da escala que se é produzida (a maioria feita na China), conseguem fazer hoje um preço acessível ao brasileiro. A alta moda, que tem um custo enorme de desenvolvimento, modelagem especial e diferenciada a cada coleção, tecidos e estampas exclusivas, acabamentos refinados, feitas em tiragens mínimas, tem um preço para uma minoria que busca exatamente isso e ainda pode pagar por ela.
JS: Como é o closet da Clô? É muito grande ou enxutinho?
CO: É enxutinho no uso, pois a cada coleção eu elejo algumas peças que se combinam e faço produções com a coleção que está na loja com as de outras mais antigas que continuaram lá. É um closet enorme que as estilistas que trabalham comigo apelidaram de “Clolândia” e que serve de acervo complementar ao acervo da fábrica. Mas é bastante reciclado, pois não sou cumulativa, é próprio do capricórnio não acumular e ser generoso. Dou muitas coisas para amigos e parentes.
JS: Vc adora gastronomia e é conhecida pelas suas maravilhas na arte de cozinhar. Algum prato predileto? Este prazer vem de longa data?
CO: Tudo da culinária italiana, fresca, leve, que preza a qualidade dos ingredientes e sem frescuras. Até a própria patisserie, pouco doce, sem exageros. Estou sempre pesquisando, faço bicicleta assistindo programas de culinária como Jamie Oliver, Troisgoss e Nigella sexyssima. Coleciono livros que habitam a minha cabeceira. Também tenho a sorte de ter a Denise, no começo minha sub chef e hoje a verdadeira da casa.
JS: Pode citar quais as marcas que mais está curtindo no momento atual?
CO: Gosto dos acessórios e do tricô da Céline, um modelo específico de sandália Lanvin e uma da Chloé. O meu olhar tem estado ainda mais exigente o que faz eu me vestir cada vez mais com as minhas próprias coleções, uma vez que, como faço e só aprovo o que estou com vontade de vestir, mesmo algo que é proposto pelas estilistas, eu sempre me pergunto e provo para sentir se eu quero usar.
JS: Já aconteceu de no meio de um dia não gostar do que vestiu na hora de sair de casa?
CO: Inúmeras vezes! Acordamos com um humor diferente daquele que pensamos no dia anterior. E, mesmo a temperatura, a luz do dia, faz a gente mudar de idéia. O que eu nunca consigo vestir é uma roupa que me dê a sensação de desconforto. Estando confortável no meu gesto, sinto-me segura, nem over dress nem less dress.
JS: Um destino?
CO: Não consigo eleger só um. Há os que ainda não conheço como Grécia, Vietnã e China, e os que eu sonho em voltar como Turquia e Marrocos. E NYC, que seria a única cidade pela qual eu trocaria São Paulo.
JS: Uma coleção?
CO: Também algumas… “Sara Moon” inverno 2007, inv. 2008, inv. 2009.
JS: Um livro?
CO: Atualmente estou lendo “Sábado” do Ian Mc Ewan, o mesmo de “Reparação” e a “Praia”, igualmente lindos. Dos contemporâneos, tenho gostado muito do sul africano JM Coetze, do brasileiro Gustavo Tezza, do israelense Amoz Oz, e dos americanos Philip Roth e Paul Auster. Um dos livros que mais gostei ultimamente foi “A elegância do Ouriço”, um best seller de uma escritora francesa que fascina do começo ao fim. A personagem principal é uma concierge intelectual que vive no no. 7 da rue de Grenelle, endereço de algumas famílias burguesas francesas. Seu romance preferido é o mesmo que o meu Ana Karenina, que já li e reli 2 vezes, e que tem um edição nova deslumbrante da Cosac & Naify.
JS: Um filme?
CO: Também não consigo dar um só, então vai um atual “Inverno da Alma”. Adoro a fotografia e o jeito de mostrar o que a alma feminina, mesmo a mais dura e simples, é capaz.
JS: E para encerrar, uma frase sobre o que é ser chic:
CO: É ser simples e descontraído. É um estado de espírito que não está preocupado em ser pós-moderno, mas sim em ser contemporâneo, em estar de acordo com o seu tempo e com o espaço que ocupa. Nunca ter a preocupação em ser sexy, pois isso também está no gesto e não na roupa, como dizia Chanel. Ser inteligente é ser chic, como diz Albert Elbaz (Lanvin).
Gostaram? Eu adorei!


















